Vinheta de primavera
A quinta se me chegou quente como chapa feira, inundando o boné promocional e o anti-higiênico jaleco charmoso do poemeuzinho. Os …
Num emaranhado de mineiridades — começando por Belo Horizonte, passando por Conceição do Mato Dentro — Zé Madú estabeleceu-se em Uberaba na década de 1970, de onde não aluiu mais os pés. Formado em Letras e Literatura, construiu a reputação de excelente professor, ótimo ator e diretor.
Casou-se na "idade da paixão, teve filhos, apanhou-se com alguns netos" e descambou-se, apaixonadamente, para os poemeuzinhos. A quinta-feira passou a ter a marca do poeta, que semanalmente publica um poema inédito, recebendo aplausos dos fiéis leitores.
Ele diz não ter um estilo definido: "por isso ziguezagueio-me na permissividade poética, salvando minha diminuta visão de mundo, brincando com imagens, neologizando o apetecível, repartindo cotidianos."
A quinta se me chegou com odores de pão de queijo e café apanhado em ribanceiras. Não abri os olhos, apenas pus-me a imaginar quão tantas são Minas, e que a minha é bonita demais. Andei pela Serra do Cipó, Serra do Tomaz, Tabuleiro, Conceição do Mato Dentro, banhei-me em suas inúmeras cachoeiras, respirei seus ares ancestrais... o poemeuzinho veio se achegando a mim e, desrebuçando-me, maroto, se desenhou, frágil, alumiando as paredes do quarto. Fez-se.
Mineirices
A poesia,
que hoje me visita,
não está escrita,
é pura sensação.
Traz em seu bojo
gostosuras
de tênues perfumes
do vento,
o hálito fresco
da manhã,
a carne macia
das horas,
abraços inesquecíveis
das lonjuras
das minhas Minas.
A poesia,
que hoje me visita,
não se desdobra
em ensinamentos,
só se faz sentir
no barro,
que se transmuta
vivo no povo,
pelas mãos calosas
e calorosas,
no sorriso fértil
das montanhas,
vales, veredas e flores.
A poesia,
que hoje te visita,
não é feia nem bonita,
é singela voz,
que não se cala,
apenas roça,
em teus ouvidos,
sopros de segredos,
puro prazer,
gerais.
Zemaria Madureira
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Uma coletânea que reúne o melhor da produção poética de Zemaria Madureira. Com linguagem que transita entre o lírico e o coloquial, o poeta nos apresenta um Brasil mineiro visto de dentro.
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